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2011-03-16

Um exemplo…

“Está intimamente entranhada na cultura japonesa a dignidade profissional e este trabalho individual em prol de um bem comum.”. Não defendendo que se vá tão longe Os 50 heróis de Fukushima é um artigo que nos deve fazer reflectir, seriamente…e fala-nos da abnegação e brio dos que arriscam a vida para tentar evitar uma catástrofe maior e de proporções inimagináveis, que fez até o Imperador falar ao seu povo, sentado (algo que só acontece em situações de guerra ou de extrema gravidade)

2011-02-27

Irlanda: será Portugal "a proxima vítima"?

Na Irlanda o Fianna Fáil (o partido do centro, à esquerda do Fine Gael e à direita do Labour) teve o seu pior resultado desde… 1921 e cede o poder ao Fine Gael (Centro-direita), em provável coligação… com  Labour! Mas, importante, não parece ter tido votação suficiente para uma maioria parlamentar (pelo que a estabilidade não estaria assegurada, caso ocorresse semelhante entre nós).
De relembrar que a situação Irlandesa é diversa mas também similar à Portuguesa em alguns aspectos
  • a última década de Portugal foi de estagnação, a Irlandesa de um fortíssimo crescimento (chegou a ser de 6 a 8% anos consecutivos), tirando a Irlanda, que aderiu à CEE (UE) em 1973, da cauda da União Europeia a 15 para o segundo país com maior PIB per capita, só atrás do Luxemburgo!
  • Ao contrário de Portugal, onde a nota foi a estabilidade ou a lenta subida, a Irlanda sofreu uma forte valorização imobiliária com os preços a subirem praticamente 100% na última década, até à crise financeira! Essa especulação explica parcialmente o porquê do colapso do sistema financeiro Irlandês (os “activos tóxicos”)
  • Já quanto a uma das explicações da crise Irlandesa, algo similar à Portuguesa, prende-se com um dos motores do crescimento: baseado em investimento estrangeiro, no caso Irlandês muitas vezes decidido pela diáspora, sobretudo por gestores de multinacionais norte-americanas, faz com que haja alguma crise económica quando esse investimento cessa, ou se retira, levando a uma falta de liquidez dramática num sistema de financeiro que, no caso Irlandês se havia “dopado” com esse afluxo de capitais pouco sustentável no longo prazo
  • As razões para o crescimento rápido são também parte das causas profundas do colapso financeiro Irlandês: além das razões culturais e emocionais, as razões mais fortes para o investimento estrangeiro eram a mão de obra qualificada (a aposta da Irlanda nos anos 70 e 80 para os fundos Europeus foi a formação… ), a língua inglesa e uma política fiscal altamente atractiva para o investimento… Ora isso implica que se o investimento parasse de aumentar, as receitas fiscais iriam cair dramaticamente, tornando deficitário um Estado que teve anos consecutivos de superavits… (algo diferente do Português…)
Em resumo: a crise Irlandesa é de natureza financeira, e tem forte potencial de recuperação económica, a médio prazo. A Portuguesa é económica, de base: crescimento nulo, ou pouco mais, na última década, e poucas expectativas de crescimento na próxima década. Ou seja: a crise Portuguesa tem mais relação com os “fundamentais”…

Por razões e com percursos diferentes, a verdade é que ambos os países tiveram, a partir de 2008, um problema grave de insolvabilidade… A Irlanda teve de recorrer à ajuda externa antes de Portugal, mesmo após ter cortado salários da função pública na casa dos 20%. O Estado foi forçado, em 2008, a ir em socorro da banca e em Novembro, teve de recorrer ao fundo de resgate da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI)- uma ajuda a 5% de juros anuais. Para muitos, esta perda de soberania financeira e as duras medidas de austeridade impostas ao país explicam os resultados eleitorais históricos.
A questão é então saber se em Portugal estaremos perante cenário idêntico – necessidade de ajuda externa – e se tal é positivo ou negativo, ou se é solução –, e se estamos também nós perante uma crise e uma mudança política. Com juros acima de 7%, e perante um crescimento nulo ou negativo, as perspectivas para Portugal para a próxima década são mais do que negras, apesar do louvável esforço na área das exportações e de indústrias inovadoras. Sócrates vai reunir-se com Merkel, a convite desta, antes da cimeira decisiva… E a instabilidade política é negativa, não ajuda nem irá ajudar, mas a verdade é que se as sondagens aguçam o apetite do PSD e as pressões internas sobre Passos Coelho aumentam. Este, porém, mantém-se calmo, não mostrando pressa de chegar a um poder que sabe que será duro, muito duro. E sabe também que é difícil ter sucesso sem o apoio de certas figuras, incluindo do mais influente Português da actualidade – Ricardo Espírito Santo, que claramente entende que eleições agora seriam negativas para o país.
PS: falamos da República da Irlanda “do Sul”, a independente, “a católica”, por contraste com a “do norte”, parte do Reino Unido e protestante na sua maioria)
PS: entretanto, dois artigos importantes para melhor compreender as nossas relações com o Magreb e as implicações da crise nesta região sobre o mercado petrolífero, de que representa ao todo mais de 35% do mercado mundial, e que explicam a atenção do mundo sobre os acontecimentos recentes na Líbia e nos demais países.
PS: E curiosos os links sugeridos por Pedro Magalhães no seu margens de erro, incluindo o link para a tese de Doutoramento na London School of Economics por Saif Al-Islam Alqadhafi, filho de Khadafi sobre… "The Role of Civil Society in the Democratisation of Global Governance Institutions: From ‘Soft Power’ to Collective Decision-Making?"!! E por falar em sociedade civil: interessante artigo sobre o futuro político de Fernando Nobre e da nossa cidadania…

2011-02-26

O fim do regime internacional?

A Al Qaeda parece querer ajudar Khadafi, informando que apoia o fim do regime. Interna e externamente a pressão sobre a liderança é cada vez mais forte, o que leva a uma abertura à negociação (em declarações, falta saber se em acção, dadas as notícias de chacinas de opositores, inclusivamente entre os feridos nos hospitais! Enquanto a fuga continua - veja algumas imagens).

Este elemento (Al Qaeda) reforça a preocupação com o futuro do Magreb e, de modo mais lato, com o mundo islâmico. Obviamente nem todos os países têm a estrutura tribal da Líbia, mas não podemos esquecer que a maior parte das lideranças da Al Qaeda provém... da Arábia Saudita, ou seja, do Estado que detém 15% das reservas mundiais de petróleo e talvez o único capaz de aumentar a produção diária de modo substancial (a sua spare capacity actual é elevada). Aliás, foi ela que, mesmo antes da reunião da OPEP, que lidera, aumentou a produção de modo a que preços descessem aos níveis de quarta feira (descendo $10 num só dia, em Londres). Mas a questão permanece:
- até quando pode a Arábia Saudita permanecer controlada, internamente,
- até quando pode a Arábia Saudita absorver choques nos outros Estados?
- que ondas de choque pdoerá causar na economia mundial e, sobretudo, na Europeia?

O mundo é cada vez mais um local incerto...

PS: entretanto Espanha diminui a velocidade limite nas auto-estradas, a Itália pede ajuda à UE para fazer face à onda de refugiados, enquanto Portugal é "atingido" pelo Wikileaks...

2011-02-25

Khadafi culpa Bin Laden pela revolta popular na Líbia

Em discurso na TV, Khadafi culpa Bin Laden pela revolta popular na Líbia. O problema é que com este argumento, o ainda lider da Líbia:
  • levanta uma questão pertinente: no país mais tribal do Magreb, a hipótese da Al Qaeda ter uma base é algo que é verdadeiramente assustador para a Europa e… não é impossível…
  • aponta como inimigo o maior inimigo do Ocidente
  • pode bem ter alguma razão… o que se segue?
A questão Líbia e as dúvidas sobre a Arábia Saudita, o canal de Suez, e em todo o Islão, levam a que o petróleo suba 10% num só dia, quando a Líbia fornece menos de 2% do petróleo mundial…

2011-02-23

A partir daqui tudo é possível…

Adriano Moreira fala, há mais de uma década, da “Anarquia Madura” como o mote que melhor descreve o sistema de relações internacionais desde o fim da guerra fria.
Pois bem, hoje chegaram as notícias que tanto se esperavam/temiam…
- Os barcos Iranianos passeiam-se no canal do Suez com permissão do “novo” (será novo?!?) poder Egipcio, e sendo considerado uma provocação por Israel…
- As revoltas prometem chegar à Arábia Saudita, o mais importante produtor mundial de petróleo e o garante, ao longo das últimas 7 décadas, de algum equilíbrio no mercado da energia mundial (via OPEP)…. A família real saudita é o baluarte dessa estabilidade, mas está agora a prometer reformas e apoios sociais… Talvez demasiado tarde! Mais uma vez o facebook revela-se como a escolha dos jovens árabes, continuando a dar razão à Time (ver post anterior no Socrático). E, claro, além dos jovens, é também a revolução das mulheres
- Costa do Marfim mantém boicote de exportações de cacau. O trigo já subiu 62% no último ano! A crise alimentar junta-se à energética!
Na Líbia, onde os mortos são às centenas e onde Khadafi se recusa a abandonar o poder, mesmo contra alguns dos seus ministros e o descontrole de partes do país, incluindo a fronteira com o Egipto… No Iemen, onde o Presidente iemenita avisa que a “anarquia” não o derrubará . No Bahrein, onde até o Circo da fórmula 1 foi cancelado.
Tudo isto perante uma ONU impotente… E um mundo que olha com preocupação para todas estas convulsões. A crise financeira de 2008 pode gerar uma crise de segurança internacional de proporções inimagináveis até há pouco…

PS: por cá, duas mexidas signiicativas nas televisões, na SIC e na TVI… e ainda no mundo das imagens, o caso da violência de Estado nas prisões…

2011-02-06

O século da interdependência global..

Em termos de potencial conflito as grandes questões do século XXI são:

- a água e o acesso a água potável (e, em menor escala, o acesso à produção alimentar)
- o acesso a fontes de energia
- os choques culturais, civilizacionas e religiosos, bem assim como as migrações.

No essencial estas são reflexo das questões de sempre: sobrevivência e identidade (e supremacia).

Só que, no século XXI, há duas novidades:
- a questão da água passa a ter um destaque reforçado - (já não é apenas o tradicional acesso aos cursos de água, fundamental para a agricultura, pecuária e indústria, mas o acesso a água potável em quantidade suficiente
- todas estas questões não só superam fronteiras políticas (água, energia, cultura e religião) como têm agora dimensões globais. Até ao século XIX, de algum modo, o uso dos recursos locais poderia permitir confinar os conflitos à escala regional, entre vizinhos próximos. O século XX é o século da transição e por isso teve dois conflitos de algum modo quase-globais. Mas se a àquelas dimensão somarmos a questão das NBQ (armas Nucleares, Biológicas e Químicas) cujo alcance é planetário e cuja transportablidade as transforma em assunto de todos... e considerarmos a rapidez da circulação da informação, vemos que a interdependência é o resultado inevitável. 

E é por isso que o processo em curso no Egipto nos afecta a todos. Para quem não acredita... o preço da gasolina que metemos no carro de manhã subiu poucos dias depois do início do conflito!

No CRI temos um pequeno artigo Quatro partes envolvidas da questão do Oriente Médio realizam conversações em Munique que mostram como o mundo está a seguir de perto o processo.

(Nota: a própria existência da CRI - China Radio Internacional, denota esta interdependência: a China preocupa-se em ter um meio de comunicação que a dê a conhecer ao mundo... impensável até recentemente!)

As demissões de grande parte da elite dirigente Egípcia, que ontem aqui referimos, poderão ser fruto das pressões norte-americanas.
Esta demissão colectiva, inclusive do filho de Mubarak, parece ter como objectivo permitir a manutenção na Presidência de Mubarak, para que este possa assegurar uma transição pacífica em conjunto com os militares, e para que possa permanecer no Egipto, sem ter de se exilar - um dos objectivos que enunciou no discurso que fez aos Egípcios e ao mundo, há uns dias.
Desde aí os Norte-americanos mantiveram a defesa da ideia da necessidade de reformas imediatas (algo que apela "à rua árabe") mas também iniciaram um discurso focado na preocupação com o risco do processo gerar um caos incontrolável ou um vazio de poder. A ONU, pela voz do seu Secretário Geral, Ban Ki-Moon juntou-se a estas vozes, tal como o Papa Bento XVI. Ora, desde há uns dias, os EUA defendem a manutenção de Mubarak como garante dessa transição pacífica - as  declarações de Frank Wisner, globalmente noticiadas, e de Hillary Clinton vão nesse sentido.

Tudo leva a crer que poderá ter sido esse o acordo: Mubarak cede, reforma, afasta parte da elite mais corrupta, saí em Setembro, mas fá-lo com dignidade, no seu timing e não "em fuga", e tenta garantir uma transição pacífica. O regresso à normalidade (os bancos estão a reabrir) e o diálogo (a irmandade muçulmana reune-se hoje com o Vice-Presidente, um general...) seriam uma prioridade.

A questão à luz da qual se deve analisar agora os cenários em aberto é se esta "jogada" ainda será a tempo de evitar o tão temido caos, que pode ser traduzido directamente na (in)segurança regional, como bem vem recordar a sabotagem do gasoduto que liga o Egipto a Israel.
E por isso devemos ter em mente que, no mundo interdependente, não é só o Egipto que está em causa. O mundo sabe-o, e por isso há manifestações de solidariedade com o povo Egípcio por todo o mundo, comona Argentina. E o mundo também sabe que mesmo que, mesmo que no Egipto o caos seja contido, falta saber se no resto do mundo e sobretudo do mundo árabe (*) a situação é controlável ou estão já libertadas forças e energias acumuladas que não poderão ser travadas: Jordânia, Tunisia, Argélia (de onde vem boa parte do gás que consumimos), Iemen e até na Arábia Saudita há focos de tensão que se libertam...


(*) o El Pais é um dos jornais, a nível mundial, que se tem distinguido pela riqueza da informação e pelos artigos de contextualização de ajudam a compreender o que está verdadeiramente em jogo.Os seus dossiers são da mais alta qualidade.


Algo que deveríamos olhar com cuidado, com muito cuidado, são as declarações de David Cameron, que reproduzem as que a Sra. Merkel proferiu há alguns meses: o fracasso do multicuturalismo e necessidade de políticas musculadas de integração. Não parece que a França tenha conseguido melhore resultados que o Reino Unido em termos de integração de minorias étnicas e culturais...