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2011-03-06

Fim de semana morno…

Num excelente artigo, pelo “desafio” intelectual que coloca, pelo título, pela irreverência, Pereira Coutinho levanta uma questão pertinente: a da capacidade de liderança de Passos Coelho num PSD tumultuoso por natureza, com muitos barões e pretendentes, muitas vozes nem sempre em uníssono, situação que se agrava com um período de 15 anos em que não esteve no poder sequer 3 anos…
De louvar a iniciativa do Jornal Público, com uma iniciativa inovadora no formato para um jornal generalista, e no propósito, e de excelência no conteúdo: um chat com António Câmara, fundador e CEO da Ydreams e um dos mais brilhantes portugueses vivos, Prémio Pessoa 2005. Ainda na área da troca de ideias, relembra-se novamente o jantar-debate com António Saraiva (o Presidente “dos patrões”) e Carvalho da Silva (o “chefe” dos sindicalistas…), dia 23, no Porto.
De louvar também o comportamento dos empresários da área do calçado e dos atletas Portugueses nos Europeus da modalidade ao contrário dos desperdícios que nos custam a todos, como as comissões que nunca funcionaram
A nível internacional, junta-se ao longo rosário de preocupações uma nova apreensão: a de que as armas da revolta Líbia possam ir parar ao mercado negro após o conflito… Mas por outro lado algumas novidades poderão vir do Brasil, que poderá assumir novas posições no contexto global, com mais empenho na luta pelos direitos humanos, e incluindo críticas ao Irão…
Na Irlanda, entretanto, o novo governo pretende renegociar o acordo de apoio internacional. Veremos o que daqui resulta, sabendo-se que a Grécia continua a ser dada como um caso de apoio falhado…
PS: “Homens da Luta”, dupla humorista associada à sátira política em forma de marketing de guerrilha, conseguiram vender o Festival da Canção graças à votação do público. Se a isto juntarmos o fenómeno Deolinda e da Geração à Rasca, podemos intuir que os Portugueses estão a começar a reagir contra o “aperto do cinto” através da música e das “artes”… Pode ser uma tendência interessante de analisar…

2011-03-04

Libia: telhados de vidro a Ocidente…

Desgraça de Khadafi começa a revelar alguns telhados de vidro no Ocidente… Com demissões e uma reacção estranha no seu momento, um mandato da Interpol – após 40 anos de regime… lembraram-se? Ummmh… Temem-se revelações?

2011-02-27

Irlanda: será Portugal "a proxima vítima"?

Na Irlanda o Fianna Fáil (o partido do centro, à esquerda do Fine Gael e à direita do Labour) teve o seu pior resultado desde… 1921 e cede o poder ao Fine Gael (Centro-direita), em provável coligação… com  Labour! Mas, importante, não parece ter tido votação suficiente para uma maioria parlamentar (pelo que a estabilidade não estaria assegurada, caso ocorresse semelhante entre nós).
De relembrar que a situação Irlandesa é diversa mas também similar à Portuguesa em alguns aspectos
  • a última década de Portugal foi de estagnação, a Irlandesa de um fortíssimo crescimento (chegou a ser de 6 a 8% anos consecutivos), tirando a Irlanda, que aderiu à CEE (UE) em 1973, da cauda da União Europeia a 15 para o segundo país com maior PIB per capita, só atrás do Luxemburgo!
  • Ao contrário de Portugal, onde a nota foi a estabilidade ou a lenta subida, a Irlanda sofreu uma forte valorização imobiliária com os preços a subirem praticamente 100% na última década, até à crise financeira! Essa especulação explica parcialmente o porquê do colapso do sistema financeiro Irlandês (os “activos tóxicos”)
  • Já quanto a uma das explicações da crise Irlandesa, algo similar à Portuguesa, prende-se com um dos motores do crescimento: baseado em investimento estrangeiro, no caso Irlandês muitas vezes decidido pela diáspora, sobretudo por gestores de multinacionais norte-americanas, faz com que haja alguma crise económica quando esse investimento cessa, ou se retira, levando a uma falta de liquidez dramática num sistema de financeiro que, no caso Irlandês se havia “dopado” com esse afluxo de capitais pouco sustentável no longo prazo
  • As razões para o crescimento rápido são também parte das causas profundas do colapso financeiro Irlandês: além das razões culturais e emocionais, as razões mais fortes para o investimento estrangeiro eram a mão de obra qualificada (a aposta da Irlanda nos anos 70 e 80 para os fundos Europeus foi a formação… ), a língua inglesa e uma política fiscal altamente atractiva para o investimento… Ora isso implica que se o investimento parasse de aumentar, as receitas fiscais iriam cair dramaticamente, tornando deficitário um Estado que teve anos consecutivos de superavits… (algo diferente do Português…)
Em resumo: a crise Irlandesa é de natureza financeira, e tem forte potencial de recuperação económica, a médio prazo. A Portuguesa é económica, de base: crescimento nulo, ou pouco mais, na última década, e poucas expectativas de crescimento na próxima década. Ou seja: a crise Portuguesa tem mais relação com os “fundamentais”…

Por razões e com percursos diferentes, a verdade é que ambos os países tiveram, a partir de 2008, um problema grave de insolvabilidade… A Irlanda teve de recorrer à ajuda externa antes de Portugal, mesmo após ter cortado salários da função pública na casa dos 20%. O Estado foi forçado, em 2008, a ir em socorro da banca e em Novembro, teve de recorrer ao fundo de resgate da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI)- uma ajuda a 5% de juros anuais. Para muitos, esta perda de soberania financeira e as duras medidas de austeridade impostas ao país explicam os resultados eleitorais históricos.
A questão é então saber se em Portugal estaremos perante cenário idêntico – necessidade de ajuda externa – e se tal é positivo ou negativo, ou se é solução –, e se estamos também nós perante uma crise e uma mudança política. Com juros acima de 7%, e perante um crescimento nulo ou negativo, as perspectivas para Portugal para a próxima década são mais do que negras, apesar do louvável esforço na área das exportações e de indústrias inovadoras. Sócrates vai reunir-se com Merkel, a convite desta, antes da cimeira decisiva… E a instabilidade política é negativa, não ajuda nem irá ajudar, mas a verdade é que se as sondagens aguçam o apetite do PSD e as pressões internas sobre Passos Coelho aumentam. Este, porém, mantém-se calmo, não mostrando pressa de chegar a um poder que sabe que será duro, muito duro. E sabe também que é difícil ter sucesso sem o apoio de certas figuras, incluindo do mais influente Português da actualidade – Ricardo Espírito Santo, que claramente entende que eleições agora seriam negativas para o país.
PS: falamos da República da Irlanda “do Sul”, a independente, “a católica”, por contraste com a “do norte”, parte do Reino Unido e protestante na sua maioria)
PS: entretanto, dois artigos importantes para melhor compreender as nossas relações com o Magreb e as implicações da crise nesta região sobre o mercado petrolífero, de que representa ao todo mais de 35% do mercado mundial, e que explicam a atenção do mundo sobre os acontecimentos recentes na Líbia e nos demais países.
PS: E curiosos os links sugeridos por Pedro Magalhães no seu margens de erro, incluindo o link para a tese de Doutoramento na London School of Economics por Saif Al-Islam Alqadhafi, filho de Khadafi sobre… "The Role of Civil Society in the Democratisation of Global Governance Institutions: From ‘Soft Power’ to Collective Decision-Making?"!! E por falar em sociedade civil: interessante artigo sobre o futuro político de Fernando Nobre e da nossa cidadania…

2011-02-26

Para complicar algo mais…

A aviação israelita volta a bombardear a Faixa de Gaza, enquanto Khadafi resiste em Tripoli, apesar de o seu filho já reconhecer estar o país à beira de uma guerra civil.

Entre nós, é adiada a regionalização na moção de Sócrates, enquanto nós somos vistos como povo vaidoso que desperdiça recursos e Rui Machete é acusado de má gestão e até de alguma falta de seriedade… nos telegramas Wikileaks…

PS: Tripoli fica a 2106Km de Lisboa, enquanto Berlim fica a 2254 Km... Já Rabat fica sensivelmente à mesma distância que Madrid... 

O fim do regime internacional?

A Al Qaeda parece querer ajudar Khadafi, informando que apoia o fim do regime. Interna e externamente a pressão sobre a liderança é cada vez mais forte, o que leva a uma abertura à negociação (em declarações, falta saber se em acção, dadas as notícias de chacinas de opositores, inclusivamente entre os feridos nos hospitais! Enquanto a fuga continua - veja algumas imagens).

Este elemento (Al Qaeda) reforça a preocupação com o futuro do Magreb e, de modo mais lato, com o mundo islâmico. Obviamente nem todos os países têm a estrutura tribal da Líbia, mas não podemos esquecer que a maior parte das lideranças da Al Qaeda provém... da Arábia Saudita, ou seja, do Estado que detém 15% das reservas mundiais de petróleo e talvez o único capaz de aumentar a produção diária de modo substancial (a sua spare capacity actual é elevada). Aliás, foi ela que, mesmo antes da reunião da OPEP, que lidera, aumentou a produção de modo a que preços descessem aos níveis de quarta feira (descendo $10 num só dia, em Londres). Mas a questão permanece:
- até quando pode a Arábia Saudita permanecer controlada, internamente,
- até quando pode a Arábia Saudita absorver choques nos outros Estados?
- que ondas de choque pdoerá causar na economia mundial e, sobretudo, na Europeia?

O mundo é cada vez mais um local incerto...

PS: entretanto Espanha diminui a velocidade limite nas auto-estradas, a Itália pede ajuda à UE para fazer face à onda de refugiados, enquanto Portugal é "atingido" pelo Wikileaks...

2011-02-25

Khadafi culpa Bin Laden pela revolta popular na Líbia

Em discurso na TV, Khadafi culpa Bin Laden pela revolta popular na Líbia. O problema é que com este argumento, o ainda lider da Líbia:
  • levanta uma questão pertinente: no país mais tribal do Magreb, a hipótese da Al Qaeda ter uma base é algo que é verdadeiramente assustador para a Europa e… não é impossível…
  • aponta como inimigo o maior inimigo do Ocidente
  • pode bem ter alguma razão… o que se segue?
A questão Líbia e as dúvidas sobre a Arábia Saudita, o canal de Suez, e em todo o Islão, levam a que o petróleo suba 10% num só dia, quando a Líbia fornece menos de 2% do petróleo mundial…

2011-02-23

A partir daqui tudo é possível…

Adriano Moreira fala, há mais de uma década, da “Anarquia Madura” como o mote que melhor descreve o sistema de relações internacionais desde o fim da guerra fria.
Pois bem, hoje chegaram as notícias que tanto se esperavam/temiam…
- Os barcos Iranianos passeiam-se no canal do Suez com permissão do “novo” (será novo?!?) poder Egipcio, e sendo considerado uma provocação por Israel…
- As revoltas prometem chegar à Arábia Saudita, o mais importante produtor mundial de petróleo e o garante, ao longo das últimas 7 décadas, de algum equilíbrio no mercado da energia mundial (via OPEP)…. A família real saudita é o baluarte dessa estabilidade, mas está agora a prometer reformas e apoios sociais… Talvez demasiado tarde! Mais uma vez o facebook revela-se como a escolha dos jovens árabes, continuando a dar razão à Time (ver post anterior no Socrático). E, claro, além dos jovens, é também a revolução das mulheres
- Costa do Marfim mantém boicote de exportações de cacau. O trigo já subiu 62% no último ano! A crise alimentar junta-se à energética!
Na Líbia, onde os mortos são às centenas e onde Khadafi se recusa a abandonar o poder, mesmo contra alguns dos seus ministros e o descontrole de partes do país, incluindo a fronteira com o Egipto… No Iemen, onde o Presidente iemenita avisa que a “anarquia” não o derrubará . No Bahrein, onde até o Circo da fórmula 1 foi cancelado.
Tudo isto perante uma ONU impotente… E um mundo que olha com preocupação para todas estas convulsões. A crise financeira de 2008 pode gerar uma crise de segurança internacional de proporções inimagináveis até há pouco…

PS: por cá, duas mexidas signiicativas nas televisões, na SIC e na TVI… e ainda no mundo das imagens, o caso da violência de Estado nas prisões…

2011-02-20

O Mundo Islâmico em ebulição... e não só...

Alguns artigos sobre a situação da Líbia, sobre incêndios, mortos, manifestações, repressão, raiva contra um regime com ... 40 anos!

E sobre as celebrações de uma vitória simbólica no Bahrein, manifestações em Marrocos (a capital mais próxima de Lisboa...),

Mas, como quase sempre, o que começa com uma sensação de libertação acaba em lágrimas... A incerteza sobre o fim do regime ou de ser apenas uma mudança aparente, já levantadas por Fareed Zakaria e por El Baradei, a abertura do estreito do  Suez a barcos iranianos (após 30 anos sem relações entre Egipto e Irão...), e a eventual abertura e fronteiras com Gaza mostram o potencial de novos conflitos na região... E de lembrar que a situação na Palestina e com Israel é verdadeiramente uma boa parte, senão o centro do problema...

Se a isto somarmos o potencial de subida exponencial dos preços do crude, dos alimentos e de outras commodoties... e crises como as do Afeganistão... O mundo pode estar a entrar num período extremamente complicado... Numa altura em que organizações como a ONU se confrontam com entidades "informais" de todos os tipos, como o G20...

Do lado da esperança: os sonhos de liberdade e democracia próxima dos modelos ocidentais podem ser reais nas novas gerações - com forte contacto com milhões de primos, amigos e familiares que vivem nas sociedade ocidentais - e, por outro lado, o que pode ser "a queda de um mito" entre esses mesmos jovens Árabes e Turcos: o fim do poder de sedução e de inspiração do regime Iraniano, substituído pela atracção e sedução do "grito de revolta das juventudes Árabes" sobre as juventudes iranianas (Persas)....

We life in challenging time...

Mais uma vez, recomendamos:
  • El Pais - Oriente Próximo
  • Fareed Zakaria (GPS, CNN: excelentes entrevistas e artigos sobre a situação, esta semana - incluindo alguns em defesa ou pelo menos em desmistificação da Irmandade Islâmica 
  • e também a entrevista de António Monteiro, um dos mais brilhantes e experientes diplomatas Portugueses, na SIC Notícias, no programa Sociedade das Nações 
PS: um jornal tablóide dá 6 semana de vida a um dos ícones e símbolos maiores da nossa era, Steve Jobs, o fundador da Apple e considerado o homem por detrás das definições de muitas das tendências da vida contemporânea, nem sempre positivas (as notícias sobre a sua saúde chegam a ter impactos de mais de 10% diários sobre valor da Apple, hoje a segunda maior empresa do mundo em termos de capitalização bolsista, atrás da Exxon!)

    2011-02-15

    O dia de raiva em Teerão e não só...

     Autoridades iranianas responderam com violência ao "dia de raiva" em Teerão...
    Hoje pedem-se até a cabeça dos opositores: claramente o rumo dos acontecimentos é bem diverso do que ocorreu no Egipto...

    E no Iemen também há efeito dominó...Tal como na Palestina, na Siria, e até no Bahrain.

    E novos desenvolvimentos no Egipto : onde se prometem mudança constitucionais em 10 dias! E onde se recupera parte do espólio desaparecido!

    Mas podemos estar iludidos sobre

    2011-02-11

    Afinal Mubarak s(c)aiu…

    Após Mubarak ter anunciado, ontem, que não sairia… Algumas horas depois, hoje, o Vice-Presidente anunciou que Mubarak resignou… não deverá ter sido pelo seu próprio pé… Mas o fundamental não é isso.. é compreender o que pode acontecer no Egipto e em termos de equilíbrios regionais e globais… É algo que pode ter impacto na vida de todos nós… Por isso a demissão de Mubarakfoi assinalada em todo o mundo. Veja aqui algumas das reacções.

    Numa leitura rápida, parece que a tensão gerada pela recusa em sair por parte de Hosni Mubarak deverá ter os militares a ponderarem. As imagens da Praça Tahrir terão tido efeito: sentindo o risco de uma imprevisível guerra civil, terão visto na saída de Mubarak a única solução para diminuir a tensão, esvaziar a rua e a ideia de martirio e assim preservar os privilégios, controlando o processo de transição democrática... Por ora, e com o anúncio de que os militares, parece que as previsões de Fareed Zakaria se realizam - relembramos o post anterior, sobre o assunto.

    2011-02-09

    Egipto: ainda dura...

    A tensão sobe de tom e os riscos aumentam... o cenário de guerra civil não está fora de questão, mas não é, felizmente, o mais provável - pelo facto de os militares terem o controle da situação e apesar de tudo não parecer haver fracturas internas significativas no seu seio. Para os militares, além da defesa dos seus próprios privilégios, estarão do lado da defesa das instituições, da estabilidade, da preservação da ordem e da dignidade do Estado, compreendendo porém os anseios de maior liberdade... e de maior desenvolvimento...

    Neste ambiente, e perante as palavras do actual Vice-Presidente, sobre o fim da "tolerância" com as manifestações, um "dia negro" que force o final dos protestos pode marcar um fim dramático deste levantamento popular, até às eleições de Setembro. A menos que as pressões norte-americanas se revelem mais fortes... e a saída de Mubarak seja inevitável em função das pressões internacionais e de notícias que o descredibilizam cada vez mais, nomeadamente sobre a sua fortuna!

    2011-02-07

    Fareed Zakaria GPS

    No seu programa na CNN, GPS, Fareed Zakaria, tal como no seu artigo na Time dá-nos uma visão mais profunda do que se passa no Egipto: o risco dos Ocidentais é pactuarem com orquestração militar. Se isso for visto desse modo, então o risco de o Egipto se tornar num novo Irão é real. Caso contrário isso não acontecerá. O Argumento:Os militares estão no poder há décadas, antes de Mubarak. Têm largos privilégios. Dominam grande parte das indústrias do país. Dominam o seu comércio internacional. Vivem em estado de excepção À décadas. Não vão ceder os seus privilégios facilmente.
    Ora, nos últimos dias temos visto reforçar o poder das Forças Armadas:
    - dominam a rua
    - conquistam apoio entre a população ao não agir, aparentemente
    - sairam agora os ministros civis, e mais de 50% do gabinete é agora ocupado por militares;
    - estão dispostos a deixar cair Mubarak, se isso permitir permanecerem no controlo, sob uma fachada democrática;
    - 80% dos Governadores de Província são agora militares.
    No fundo, sob a fachada de "amigos" de uma transição democrática, estão a reforçar o seu poder e privilégios, criando condições para a sua perpetuação no poder. Mas a rua está agora descontrolável. Mais cedo ou mais tarde, talvez após saída de Mubarak, revoltar-se-á contra manutenção do status quo, compreendendo que o regime não é o de Mubarak, mas o dos militares.
    A Irmandade Muçulmana, criada em 1928 mas que há muito renunciou à violência, apesar de ter sido a grande força de oposição nas últimas décadas, é estimada valer 25% dos votos. Não chegará ao poder sozinha. MAS...
    Para Zakaria, se os Ocidentais, sobretudo os EUA, forem vistos como estando associados a esta tentativa de manutenção de poder, então o risco de revolta,  de extremismo, é potecialmente maior, aumentando as hipóteses de se repetir o que aconteceu em 1979, com a deposição do Xá e a instalação do regime dos Ayatolas, no Irão...

    2011-02-06

    O século da interdependência global..

    Em termos de potencial conflito as grandes questões do século XXI são:

    - a água e o acesso a água potável (e, em menor escala, o acesso à produção alimentar)
    - o acesso a fontes de energia
    - os choques culturais, civilizacionas e religiosos, bem assim como as migrações.

    No essencial estas são reflexo das questões de sempre: sobrevivência e identidade (e supremacia).

    Só que, no século XXI, há duas novidades:
    - a questão da água passa a ter um destaque reforçado - (já não é apenas o tradicional acesso aos cursos de água, fundamental para a agricultura, pecuária e indústria, mas o acesso a água potável em quantidade suficiente
    - todas estas questões não só superam fronteiras políticas (água, energia, cultura e religião) como têm agora dimensões globais. Até ao século XIX, de algum modo, o uso dos recursos locais poderia permitir confinar os conflitos à escala regional, entre vizinhos próximos. O século XX é o século da transição e por isso teve dois conflitos de algum modo quase-globais. Mas se a àquelas dimensão somarmos a questão das NBQ (armas Nucleares, Biológicas e Químicas) cujo alcance é planetário e cuja transportablidade as transforma em assunto de todos... e considerarmos a rapidez da circulação da informação, vemos que a interdependência é o resultado inevitável. 

    E é por isso que o processo em curso no Egipto nos afecta a todos. Para quem não acredita... o preço da gasolina que metemos no carro de manhã subiu poucos dias depois do início do conflito!

    No CRI temos um pequeno artigo Quatro partes envolvidas da questão do Oriente Médio realizam conversações em Munique que mostram como o mundo está a seguir de perto o processo.

    (Nota: a própria existência da CRI - China Radio Internacional, denota esta interdependência: a China preocupa-se em ter um meio de comunicação que a dê a conhecer ao mundo... impensável até recentemente!)

    As demissões de grande parte da elite dirigente Egípcia, que ontem aqui referimos, poderão ser fruto das pressões norte-americanas.
    Esta demissão colectiva, inclusive do filho de Mubarak, parece ter como objectivo permitir a manutenção na Presidência de Mubarak, para que este possa assegurar uma transição pacífica em conjunto com os militares, e para que possa permanecer no Egipto, sem ter de se exilar - um dos objectivos que enunciou no discurso que fez aos Egípcios e ao mundo, há uns dias.
    Desde aí os Norte-americanos mantiveram a defesa da ideia da necessidade de reformas imediatas (algo que apela "à rua árabe") mas também iniciaram um discurso focado na preocupação com o risco do processo gerar um caos incontrolável ou um vazio de poder. A ONU, pela voz do seu Secretário Geral, Ban Ki-Moon juntou-se a estas vozes, tal como o Papa Bento XVI. Ora, desde há uns dias, os EUA defendem a manutenção de Mubarak como garante dessa transição pacífica - as  declarações de Frank Wisner, globalmente noticiadas, e de Hillary Clinton vão nesse sentido.

    Tudo leva a crer que poderá ter sido esse o acordo: Mubarak cede, reforma, afasta parte da elite mais corrupta, saí em Setembro, mas fá-lo com dignidade, no seu timing e não "em fuga", e tenta garantir uma transição pacífica. O regresso à normalidade (os bancos estão a reabrir) e o diálogo (a irmandade muçulmana reune-se hoje com o Vice-Presidente, um general...) seriam uma prioridade.

    A questão à luz da qual se deve analisar agora os cenários em aberto é se esta "jogada" ainda será a tempo de evitar o tão temido caos, que pode ser traduzido directamente na (in)segurança regional, como bem vem recordar a sabotagem do gasoduto que liga o Egipto a Israel.
    E por isso devemos ter em mente que, no mundo interdependente, não é só o Egipto que está em causa. O mundo sabe-o, e por isso há manifestações de solidariedade com o povo Egípcio por todo o mundo, comona Argentina. E o mundo também sabe que mesmo que, mesmo que no Egipto o caos seja contido, falta saber se no resto do mundo e sobretudo do mundo árabe (*) a situação é controlável ou estão já libertadas forças e energias acumuladas que não poderão ser travadas: Jordânia, Tunisia, Argélia (de onde vem boa parte do gás que consumimos), Iemen e até na Arábia Saudita há focos de tensão que se libertam...


    (*) o El Pais é um dos jornais, a nível mundial, que se tem distinguido pela riqueza da informação e pelos artigos de contextualização de ajudam a compreender o que está verdadeiramente em jogo.Os seus dossiers são da mais alta qualidade.


    Algo que deveríamos olhar com cuidado, com muito cuidado, são as declarações de David Cameron, que reproduzem as que a Sra. Merkel proferiu há alguns meses: o fracasso do multicuturalismo e necessidade de políticas musculadas de integração. Não parece que a França tenha conseguido melhore resultados que o Reino Unido em termos de integração de minorias étnicas e culturais...

    2011-02-05

    Ainda o Egipto e o futuro…

    Durante o dia de hoje surgiram diversas notícias, algumas contraditórias, sobre o processo revolucionário em curso no Egipto...  

    Parece que se confirma que os Chefes do partido no poder no Egipto abandonam cargos - (Publico), incluindo o filho de Mubarak, e há notícias de que ElBaradei admite candidatar-se a presidente, mas por outro lado, a notícia da Demissão de Mubarak veio a ser desmentida pela televisão estatal.  
    Aparentemente demitem-se os "imediatos", para poder permanecer o "comandante" no seu posto... Será que ainda a tempo? A reforçar esta ideia, e muito interessantes são as notícias que focam na dimensão internacional do processo e do seu potencial impacto na região e no mundo, seja a nível político seja a nível económico. No Jornal do Brasil lê-se que Crise política no Egito intensifica mobilização de líderes mundiais enquanto o IOL, citando a Reuters, publica que Estados Unidos defendem que «Mubarak deve ficar» através de Frank Wisner, enviado especial de Barack Obama à conferência de segurança que se realiza em Munique. Implícita a ideia de que será o único com condições para implementar as mudanças necessárias e assegurar uma transição política pacífica bem sucedida. A mesma notícia surge em O Globo.

    Todo este acompanhamento diário da situação por parte dos líderes mundiais, ou a volatilidade dos preços do crude ou mesmo de diversas commodoties e até dos alimentos, é prova da importância estratégica crucial do Egipto, que já havíamos referido...

    2011-02-04

    Islão e Ocidente...

    Videos de conferências sobre o Ocidente e o Islão: obrigatórios!

    (e um obrigado ao Vicente Ferreira)

    Egipto… em actualização

    O Egipto, ao contrário da Tunisia, é um pais chave a nível internacional.Tão chave que era um dos 10 países em que se fala quando se fala de alargar os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. O maior país Árabe, em população e em história, bem como o mais determinante em termos dos equilíbros na região: a sua relação de algum equilíbrio com Israel que fazem do Egitp um tampão e um intermediário dessa relação, bem como a gestão do canal de Suez, por onde passa a maior parte do comércio Ocidente-Oriente, são determinantes. Estes dados mostram a sua importância não só para a região como para os delicados equilíbrios internacionais, políticos, diplomáticos, militares, económicos, e até sociais e culturais e religiosos. Não por acaso o atentado contra os Cristãos Egípcios (um ramo do Cristianismo cuja importância histórica e simbólica é inegável) de há uns meses teve forte impacto mediático e mereceu até veementes comentários de Bento XVI, e é também essa importância que justifica a centralização noticiosa que se está a dar no Ocidente a esta “revolução” cujo futuro é ainda incerto. Os cenários de guerra civil ou de tomada do poder pelos extremistas islâmicos (apesar de a maior parte da sociedade egípcia não lhe ser favorável é um grupo com importância e peso político, até por representar “a esperança” e ter uma imagem de “seriedade” anti-corrupção e nepotismo), não estão excluídos e poderiam, de facto, representar sérios problemas em termos não só regionais como globais, com consequências imprevisíveis a nível político, militar e económico.
    A presença de Elbaradei como rosto deste movimento, aparentemente um homem moderado e um democrata ponderado, poderá ser uma garantia, sobretudo no caso de vir a emergir como líder do Egipto e se puder contar com os militares, tradicionalmente uma classe entre as mais democráticas e serenas nos países com movimentos radicais islâmicos. Mas…Era interessante que os nossos meios de comunicação publicassem um dossier, com artigos sobre o último século do Magreb, para se compreender a dinâmica que conduziu a libertação dos impérios, ao papel destes territórios nas duas guerras, como evoluiram para as indepências formais, como evoluiram em termos culturais e religiosos, como serviram interesses EUA e/ou URSS durante a Guerra Fria, e como se relacionam entre si e com o resto do mundo, nomeadamente Europa, dos quais são vizinhos próximos... E, claro, a relação com raízes milenares, com o povo de Israel, e a sua natural rejeição da criação do Estado de Israel.... Isso ajudaria a compreender o que se passa, o que está em jogo, e o que se poderá passar...
     Dia 4: