2010-02-20

Aula de MATEMÁTICA e sistemas eleitorais: porque é que Fernando Nobre ajuda Alegre...

Muitos comentadores, e não só, nos últimos dias, dizem que candidatura de Fernando Nobre prejudica Manuel Alegre... e divide a esquerda e o PS...

Estão redonda, sociologicamente MATEMATICAmente
enganados... e apenas denotam dificuldades em contas aritméticas simples... E mostram ainda que estão ainda num quadro de referência "direita"/"esquerda" clássica, e reflectem tendências de "união" forçada, ecos de apelos históricos (ex: "unidade sindical"...), e de pouca compreensão pelo fenómeno de existência do "centro" e do voto "independente" (que numas eleições podem votar BE ou PC, nas seguintes PSD ou CDS, ou vice-versa!), e da diversidade e pluralidade de opiniões e de modo de estar "na esquerda", bem como assim da característica unipessoal da Presidência da República... o que significa que o simples "gosto"/"não gosto", ou noutros termos, a empatia... se torna tão vital e válida como qualquer outra clivagem...
Em termos de ciência política simples: Olaf Palme, Filipe Gonzalez, François Mitterand, Willi Brandt ou Tony Blair votariam mais depressa em Cavaco Silva ou em Manuel Alegre? Pois... não é claro em vários destes casos... e sucede que muitas pessoas que se identificam com "esquerda" e com "centro-esquerda" e com "centro"... se aproximam e se identificam com um ou mais destes políticos

Ora... em Portugal expressam o seu voto, nos últimos 25 anos, entre 5,5 e 5,8 milhões de pessoas, (legislativas e em Presidenciais concorrenciais).
Dessas, cerca de dois terços, ou seja perto de 4 milhões de eleitores, têm comportamento previsível, são a "base social de apoio". Grosseiramente:
- 25% a 26% votam no PSD e sentem-se de centro ou de centro direita;
- 21% a 23% votam no PS e sentem-se de esquerda, centro-esquerda ou centro
- 6 a 7% votam no PCP e sentem-se de esquerda.
- 4% a 5% votam no CDS e sentem-se de direita.
- 3% a 5% votam no BE ou nas forças que o compõem, e sentem-se de esquerda
- 1% a 3% irão votar em partidos menores. São votos de "margem", mais de esquerda que direita.
NOTA: 1% equivale, grosso modo, a um valor entre 55 e 60 mil votos.
Significa isto que, no máximo, antes de eleições, 70% dos votantes "têm cor"... São cerca de 4 milhões de votos... Mas como temos bem mais de 8 milhões de recenseados reais (cadernos indicam mais de 9 milhões mas "fantasmas" devem ser centenas de milhar...) faltam mais de 4 milhões de inscritos!
Os restante "mais de 4 milhões" é que decidem eleições. Mais concretamente os apenas cerca de 40% dessa maioria que se tornam, em geral, em votantes (cerca de 1,5 a 2 milhões de pessoas! Esses são o povo cujo voto "não tem dono"...

Dado sistema eleitoral das Presidenciais Portuguesas, em que para se ser eleito é necessário ter-se mais de 50% dos votos expressos (ou seja, excluindo brancos e nulos...), não conta apenas o número de votos que se tem ser maior do que os outros candidatos: tem de ter mais votos do que TODOS OS OUTROS CANDIDATOS SOMADOS...
E, logo, é aritmética simples compreender que é crucial, para se apurar se dado candidato tem ou não mais de 50%, saber QUANTOS dos mais de 4 milhões que não têm voto pré-definido vão votar: ter mais de 50% é muito mais difícil SE HOUVER MAIS VOTANTES!

Cavaco Silva foi eleito, em 2006, com 50,4% dos votos. O número de votos que teve foi, curiosamente ou não, muito semelhante aos que tinha obtido enquanto líder do PSD e candidato a primeiro Ministro, em 1987 e 1991 (em % foi, aliás, menor em 2006 do que nessas ocasiões!). Em 2006 bastaria ter havido mais umas dezenas de milhar de votos NOUTROS candidatos (que não necessariamente em Alegre!), para ter havido segunda volta! Aí, o dramatismo esquerda-direita teria sido maior... e tudo poderia ter acontecido...
A questão da direita é também aritmética, e chama-se TECTO: nunca passou os 52% desde 1974, e a barreira dos 3 milhões de votos... é difícil... Mas a direira já desceu dos 40% - aliás 40% foi o seu último "score" (PSD + CDS nas legislativas).
Esse foi também a questão de Freitas do Amaral em 1986: ficou bem perto dos 50% na primeira volta, mas na segunda teve apenas mais alguns milhares de votos... e perdeu com mais de 48%... contra menos de 52% de Soares. Cavaco Silva tem um problema idêntico: tem um TECTO no seu número de votos e na sua capacidade de penetração! Logo: basta aumentar número de votantes que será muito mais difícil Cavaco Silva ter mais de 50% na primeira volta...

Ora, dos tais 1,5 a 2 milhões que, por votarem de acordo com conjuntura e sua opinião, em cada eleição, as decidem... mais de 1,2 milhões (na realidade é número muito próximo de 1,5 milhões) são votantes de CENTRO, que procuram equilíbrio, respeito por valores, querem liderança... São esses que em 2005 decidiram votar quase todos Sócrates e deram 45% e maioria ao PS; e esses mesmos que votaram Cavaco em 1987 e 1991 e lhe deram as maiorias; Maioria deles votaram Sampaio (PR) - mas não todos, porque Cavaco também é "sério". Votaram também em grande parte em Guterres. Também uma boa parte deles votou em Cavaco em 2006, e em igual número (cerca de 600 mil) em Manuel Alegre porque... representou a candidatura apartidária, da sociedade civil, e também era "sério"... Tal como já na re-eleição de Eanes, este eleitores votaram sem ouvir Soares.

Na realidade os "votantes sem dono" ou se abstêm por descrença ou desinteresse, ou votam
PS, PSD, ou PRD... ou Fernando Nobre... Ou Alegre... Ou Cavaco..., Conforme um partido ou um candidato, em dado momento, lhes parecer ser mais "ético", mais sério, mais credível ou ter mais capacidade de liderança... Sendo na sua maioria eleitores de centro, sentem-se mais próximos da "independência", do modelo social europeu e da ética... São apartidários mas nada apolíticos! Por isso o PS menos "de esquerda" e mais de "centro-esquerda", de "centro" e até de "centro-direita" em algumas áreas, cativou bastantes mais votos do que o PS de esquerda: a partir de Guterres (católico... conservador em algumas matérias...) o PS passou da fasquia 20-36% do período 1975-1991 para votações entre 38 e 45% de 1995 a 2009! Ou seja: tem tido o apoio da maioria dos "votos sem dono", por ter ocupado o centro político, não por ter "guinado" à esquerda. Só pode ganhar umas presidenciais - que necessitam mais de 50% dos votos expressos - quem captar o centro, não quem captar a esquerda (nas presidenciais, no fim de contas, e numa segunda volta (quando drama é maior e se sabe que decisão será logo ali...), os votantes de esquerda e de direita votarão sempre no candidato menos distante de si! Logo: é ao centro que se decide vitória!

Ora, dependendo do que Fernando Nobre vier a fazer como campanha: irá penetrar nestes eleitores, irá fazer potenciais "não votantes" votar (tal como fez OBAMA), e irá retirar votos a
TODOS os quadrantes (em poucos dias gente de todos os quadrantes decidiu que iria votar nele...), e com isso, e na primeira volta, mesmo que tenha só 4 ou 5%...:
1. aumenta numero de votos expressos face a situação em que apenas houvesse Cavaco, Alegre e alguns "candidatos menores" de esquerda, pois muita gente não se via representada em Alegre nem em Cavaco... A gente "
sem partido"...
2. faz Cavaco perder alguns votos do seu "score tradicional"; tal como
faz Alegre perder muitos do que esperava ter

Ora, dado que Cavaco tem numero de votantes "fixo" (Em 1987, 1991 e 2006 tem sempre numero de votos muito proximo, tendo entre 50,4% em 2006 e 51,7% em 1991), o facto de perder alguns votos e de aumentar o número de votos expressos, e a incapacidade de Cavaco em penetrar em "novos publicos"... RESULTA COMO SIMPLES VERDADE MATEMÁTICA que Fernando Nobre representa a
ESPERANCA maior da esquerda, do PS e... DE MANUEL ALEGRE de... haver segunda volta!!! Se isto não é ajudar, não sei o que será!

O cenário mais provável continua a ser a re-eleição de Cavaco Silva à primeira volta (muitos portugueses desses 2 milhões que decidem eleições tendem a votar na estabilidade... e re-elegem Presidentes. Ora Cavaco representa essa continuidade!)

Mas, em caso de segunda volta, temos dois cenários:
1. Cavaco contra Alegre: neste caso Alegre está em muito melhores condições do que numa primeira volta sem Fernando Nobre. Porquê? Porque PCP, PCTP-MRPP e outros partidos não estarão a "desviar" atenção e recursos numa segunda volta contra-Cavaco, como o farão na primeira volta (com ou sem Nobre); e sobretudo porque o votante de centro, e até do PS, que não gosta de Alegre ou nele não se revê, que não irá votar, ou irá votar branco ou nulo (o que, dado regra das Presidenciais, equivale a abster-se!), e não se sentirá "culpado" se Cavaco ganhar à primeira volta (pensará, "se houver segunda volta, então posso ter de engolir algum "sapo", mas por ora deixa ver, que Cavaco deve ganhar na mesma...), mas sentirá essa responsabilidade numa segunda volta, pois aí a situação já é: "não votar Alegre é votar Cavaco"! Esse dramatismo beneficia Alegre, que pode ir buscar votos que à primeira volta lhe serão negados! Mais: as pessoas que votaram em Nobre "desviadas" de voto Cavaco, terão menos resistência a votar Alegre, por já terem "saído" do seu voto Cavaco na primeira volta!
Ou seja: a existência de Nobre, aumentando hipóteses de segunda volta, AJUDAM ALEGRE, que nunca vencerá à primeira volta Cavaco Silva! Se isto não é ajudar...

2. Cavaco contra Fernando Nobre: ao contrário de Manuel Alegre, Fernando Nobre pode fazer facilmente o pleno da esquerda e do centro-esquerda, ganhar votos ao centro e à direita e ainda gerar abstenção em tradicionais votantes PSD e CDS, que não apreciam Cavaco pela sua personalidade, e admiram Fernando Nobre pela sua obra humanista (não por acaso já alguns padres o vieram apoiar!)... Ou seja: Fernando Nobre deverá ganhar as eleições a Cavaco Silva por ter um base social de apoio superior!

Acreditamos, pois, que para além do enriquecimento do debate - algo que é em si louvável ,
Fernando Nobre pode mesmo ajudar Alegre a ter uma hipótese... Mas ele, em si, tem muito mais perfil para derrotar Cavaco Silva do que o próprio Manuel Alegre! E por isso quem deveria "congregar" a esquerda não era Alegre... :-) Simples...

Isto sem prejuízo que falte um ano, muitas intervenções, muita crise, muitos episódios mediáticos, e que o futuro seja imprevisível (não esquecer, por exemplo, as questões de saúde de qualquer um dos candidato... ) e, claro, que o cenário mais credível é da vitória de Cavaco - nunca um Presidente deixou de ser re-eleito... Mas também nunca tinha havido um Presidente de direita...

1 comentário:

Isabel disse...

Cavaco Silva tem uma grande vantagem sobre todos os candidatos: ele é o Presidente da República. Isso é inultrapassável por mais contas que se façam.