2009-09-26

Ideias Políticas - parte 2: os partidos Portugueses

Olhando para os nossos partidos, teríamos, de um modo bastante simplista, o seguinte posicionamento face às ideias políticas anteriormente apresentadas:

  • PCP: um partido Marxista-Leninista, ainda hoje. Apesar de ter deixado cair alguns “chavões”, como a “ditadura do proletariado” ou passando a apoiar... as nano micro pequenas PMEs... Ainda assim, é o mais "puro" dos Partidos Portugueses, na sua filiação a uma só concepção política, não se alargando para captar mais votos;
  • BE: fundado pela fusão do Trotskista PSR (Partido Socialista Revolucionário, liderado por Louçã), pela Maoísta UDP de Mário Tomé, e pelo Política XXI, grupo dissidente do PS, próximos do socialismo democrático mas que têm vindo a ser afastados das cúpulas do BE...; o BE começou por crescer em função de uma política de "nicho", mas hoje alarga-se a outros temas e a outros grupos, não esquecendo também que BE é o partido mais adaptado e orientado para captar a radical mutação social do país nos últimos anos (um dado, a título de exemplo: passamos de 10% para 34% de filhos fora de casamento em pouco mais de uma década!), bem como o seu posicionamento internacional, ao lado de ideias anti-globalização, regulação internacional, ideias ecologistas, mas tendo como entrave ao seu crescimento ideias como o abandono da UE ou da NATO, as nacionalizações da banca e das empresas de energia, etc...
  • PS: Socialistas Democráticos e Sociais Democratas juntaram-se sob a égide do PS em 1973 em Bona, na sede do Partido Social Democrático alemão. Depois da Revolução dos Cravos e, sobretudo, após a conversão do CDS em Partido Popular, o PS recebeu também muitos defensores da doutrina social da igreja. Em 1973, Mário Soares, um social-democrata que tinha em Willy Brandt, o histórico líder do SPD Alemão, o sueco Olaf Palm, e o Francês Mitterand as suas referências, aposta na criação do PS, contra a opinião maioritária dos seus correlegionários (incluindo a sua esposa), sendo que a maioria dos fundadores estava mais próxima do socialismo democrático do que da social democracia... Hoje o PS tem uma maioria esmagadora de sociais democratas (cerca de 80%), mas que tem sido permeável a elementos importantes de liberalismo, e uma minoria ainda ligada ao socialismo democrático, além de uma simpatia pela doutrina social da Igreja, que já teve em Guterres um líder;
  • PSD: é em geral considerado o mais interessante partido em termos de ciência política. O PPD-PSD é uma improbabilidade. Tudo apontaria para ter sido um partido de "charneira", um terceiro partido, dado que a lógica partidária e os sistemas eleitorais Europeus apontavam para que fosse ocupar um espaço que não estava previsto, o espaço entre os Sociais Democratas e os Conservadores, ou seja, o espaço dos Liberais, tal como o Partido Liberal Alemão ou Britânico. Na realidade, porém, o PSD sobrepõe-se a PS e CDS. Os 3 fundadores marcam, porém, a sua abrangência. E um deles, através do seu carisma, alterou o que seria uma lógica de PCP-PS-CDS, com este último ligado aos partidos democratas-cristãos (e conservadores, tendo como referencial a CDU Alemã), tornando o PSD num dos dois maiores partidos nacionais, relegando o CDS para uma dimensão menor, e retirando ao PS muitos dos sociais democratas portugueses. Francisco Sá Carneiro foi o homem que criou o seu próprio espaço. Ao fundar o partido fê-lo com Francisco Pinto Balsemão, um homem de negócios com preocupações sociais e forte sentido ético. No fundo, um liberal-social. E fê-lo também com Mota Amaral, representando uma ala mais conservadora, mais ligado à doutrina social da Igreja. O PSD forja-se nesta amálgama tripla e no carisma de Francisco Sá Carneiro, que trouxe consigo uma forte base sociológica de pequenos comerciantes e proprietários, comerciais, trabalhadores rurais ligados ao minifundio, etc.. E por isso quebrou as regras e previsões, o PPD-PSD não se transformou no Partido Liberal, nem no “3º partido”, nem sequer renegou a social-democracia quando a Internacional Socialista – por influência de Mário Soares – recusou a entrada do PSD na mesma, conforme pedido de Sá Carneiro, por duas vezes! Ou seja: Sá Carneiro poderia ter aderido ao PS, poderia ter fundado um partido Liberal, mas compreendeu antes de ninguém que nunca chegaria ao poder desse modo: no PS porque havia Soares, que era o pai fundador e detinha os contactos internacionais vitais para o PS (a entrada na CEE era o objectivo primeiro do PS de Soares, pois garantia a fuga de tentações comunistas e salazaristas e assegurava a entrada de Portugal no mundo Moderno, livre, Europeu), como partido Liberal porque compreendeu que seria um partido menor. Daí ter pensado um partido abrangente. Saído Sá Carneiro, e após o período Cavaquista, em que PSD tanto foi social-democrata como populista, e conseguiu o importante triunfo das (re)-privatizações, o PSD anda orfão: as diferentes alas não se entendem e procuram ainda um líer que una as “facções” existentes.
  • CDS-PP: o PP não é o CDS. Na direcção do PP não há praticamente ninguém que seja "do CDS". O CDS era um partido de CENTRO (Centro Democrático e Social), fundado na ideia de um estado aberto à iniciativa privada mas com fortes preocupações sociais, defendendo resposta através de instituições privadas. Hoje, os apoiantes desta política, deste CDS, reparte-se pelo PS, pelo PSD e pelo PP. O Centro Democrático Social, fundado por Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa, era um partido "Conservador", "filho" da CDU Alemão e dos Conservadores britânico, que pretendia estar ao CENTRO, e ser um dos dois maiores partidos. Ao CDS estava destinado o destino de alternância no poder, como o PS... Mas a história não confirmou este "destino" ao partido. Numa fase inicial pós-revolução, o PSD agregou os votos de e o carisma de Sá Carneiro levou a que o CDS chegasse ao Governo como segundo partido, e dessa posição nunca mais pode sair. Isso levou a que a ala populista entrasse na luta pelo poder interno e acabasse por dominar o partido. A célebre redução do CDS ao “partido do taxi” mata em definitivo o CDS, que acaba por mudar de nome e acrescenta o PP... A direita “pura” começa a forjar-se em torno d`O Independente. Os filiados próximos de um centro politico ligado à doutrina social da Igreja dividem-se: uns permanecem, outros migram para PSD de Cavaco, aberto a tais ideias, e outros ainda, sobretudo nos anos 90, migram para o PS, pois Guterres era ele mesmo um líder muito ligado a este “centro político”. Ou seja, a expansão para a direita do PS levou a que, de facto, haja pontos de contacto muito forte entre “um certo PS” e o velho CDS, que não com o PP (isto explica porque é que Freitas foi tudo menos incoerente ao entrar no Governo PS, sobretudo em termos de Relações Externas).

2 comentários:

Cesar disse...

Cores políticas à parte, escrever que o PCP é um partido Marxista-Leninista, demonstra uma total ignorância acerca das ideologias dos vários partidos.

Pelos vistos tem o mesmo problema de alguns "politólogos": gosta de falar, mais do que gosta de se informar para pelo menos saber do que fala.

O Moscardo disse...

Caro Cesar:
antes de mais agradeço o seu comentário, até porque me obrigou a ir verificar se algo (a renúncia ao Marxismo-Leninismo) me teria escapado.
O PCP foi fundado com base no marxismo leninismo e nunca o renunciou, o que aliás gerou saídas "famosas" de alguns militantes "históricos" (Zita Seabra, Vital Moreira, etc.).
Não tendo renegado essa ideologia (tão legítima como outra qualquer) o partido é, oficialmente, ainda um partido Marxista Leninista. Aliás, pode confirmá-lo na internet.
1. O site da da CDU (que é muito moderno e está muito actualizado) mas está centrado nas eleições e não tem indicação de programa ou de fundamentos ideológicos.
2. Em http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=13&Itemid=39#77, site oficial do PCP, na parte referente ao Programa e ao próprio PCP, pode ler-se: "A base teórica do PCP é o marxismo-leninismo, concepção materialista e dialéctica do mundo, instrumento científico de análise da realidade, guia para a acção que em ligação com a prática, se enriquece e renova com o incessante progresso dos conhecimentos e experiências"
3. Também noutros locais, também oficiais, pode encontrar as respostas:
http://www.international.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=23&Itemid=33, nomeadamente no ponto 6, em que explicitamente se menciona o MArxismo Leninismo como base ideológica do partido.
4. qualquer leitura do Programa e do princípios, falando sempre da exploração do homem pelo homem e da libertação desse mesmo homem, remete para essa ideologia que, repito, é tão legítima como qualquer outra, na minha opinião
5. Como TODOS os partidos, o PCP tem de adaptar ideologias a realidades e a momentos histórios e circunstâncias. O próprio Leninismo é uma adaptação (brutal) do Marxismo. NENHUM partido integra em si apenas uma aplicação directa de uma ideologia. Mais: a maioria dos partidos integram elementos que a História foi 2"impondo" como benéficos (ex: o liberalismo, na sua forma pura, não tinha políticas sociais; ex: o comunismo, na sua forma pura, nao contempla propriedade privada de nenum meio de produção, aqui se incluindo terra ou máquinas ou ... um mero café!).

Agradeço-lhe, repito, o comentário e, no caso de encontrar algum ponto ou declaração oficial do PCP que renegue o Marxismo Leninismo como sua base ideológica, agradeço que me informe: omoscardo@gmail.com.

Obrigado. O Moscardo, Luis Maia